CPI do Narcotráfico

Chaga nacional

O Palácio do Planalto se alia à CPI no combate ao tráfico de drogas no país

Na semana passada, o presidente Fernando Henrique dedicou boa parte de seu tempo ao assunto do momento no Brasil, o narcotráfico. Na terça, recebeu os integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI, e prometeu mais verbas para o Programa de Proteção à Testemunha, maior agilidade do Banco Central nas informações bancárias dos investigados e a incorporação de cinco técnicos do banco aos trabalhos da CPI. Além disso, prometeu também aumentar o efetivo da Polícia Federal, responsável pelo combate ao narcotráfico no país. Como se o problema do Brasil fosse falta de legislação, e não meios para colocá-la em prática, o governo anunciou ainda que irá criar uma lei contra o crime organizado, embora ninguém em Brasília saiba como e quando isso deverá ocorrer. "A cooperação do governo foi total", comemorou o deputado Magno Malta (PTB-ES), presidente da CPI. Se não for um movimento pautado exclusivamente pela equipe de marketing do Palácio, de olho nos holofotes, o governo deu um sinal importante de disposição.

Na quarta-feira, o presidente se reuniu com o ministro da Defesa, Élcio Alvares, e o comandante do Exército, Gleuber Vieira, para uma conversa reservada. O assunto, classificado como confidencial, passou de novo pelo narcotráfico, especialmente sobre a participação dos militares em operações contra traficantes. Os militares brasileiros não gostam nem de ouvir essa hipótese. "As Forças Armadas não têm preparo específico para pegar narcotraficante porque dependem de inteligência e treinamento", explicou o presidente na quinta-feira. "É competência da polícia." Foi um recado de Fernando Henrique Cardoso, antecipando-se a uma visita que receberia na sexta-feira – do secretário de Defesa americano, William Cohen, um árduo defensor do emprego das Forças Armadas contra o tráfico. Cohen veio ao Brasil, oficialmente, para assinar um acordo de cooperação com o recém-criado Ministério da Defesa. Mas com todos os seus interlocutores tocou na questão do narcotráfico. Como sempre, deixou a impressão de que os EUA continuam querendo intervir na Colômbia, entretanto, já que o Brasil não quer, que resolva sozinho o problema.

A vinda do secretário não quer dizer que os americanos estejam interessados nos resultados alcançados pela CPI. Nada disso. O que interessa é a imensa fronteira que o Brasil tem com a Colômbia – o maior produtor mundial de cocaína. Ali, a vigilância é quase nula. Há poucos policiais, ainda não existem radares e os rios não têm fiscalização alguma. Para agravar, a guerrilha colombiana controla um imenso território vizinho ao Brasil, equivalente a 40% de toda a área da Colômbia. E, segundo os americanos, é a cocaína que sustenta o poder bélico dos revolucionários esquerdistas. Acredita-se que boa parte da droga com destino aos Estados Unidos passe por uma das rotas selvagens da Amazônia, viajando através do Brasil. É naquela região que os americanos gostariam de ver a CPI funcionando e, se possível, com a ajuda do Exército. "Combate ao narcotráfico é assunto exclusivo da Polícia Federal", resume o ministro Élcio Álvares – ou pelo menos deveria ser.

A Polícia Federal tem mapeados rotas e organogramas das principais quadrilhas que atuam nos Estados. O próprio serviço de inteligência do governo possui um setor que cuida exclusivamente de assuntos ligados ao crime organizado. Há documentos, informações e detalhes sobre quadrilhas que atuam no país. Nome de empresários, políticos e autoridades suspeitas de enriquecimento ilícito. O que falta, além de dinheiro, é disposição para enfrentar o problema. Há quatro anos, por exemplo, a Polícia Federal realizou uma ousada operação no Rio de Janeiro. Interceptou quase uma centena de telefones de suspeitos de liderar o tráfico no Estado, rastreou contas bancárias e declarações de renda. Uma dezena de traficantes graúdos acabou atrás das grades. Mas a operação revelou também outro lado do problema. As fitas, gravadas com autorização judicial, flagraram, talvez, a maior barreira de proteção aos criminosos: os próprios policiais. Há diálogos comprometedores de traficantes com policiais civis, militares e federais. Conversas que mostram a promiscuidade entre o poder constituído e o poder clandestino das quadrilhas. Diálogos de pagamento de propinas, combinações e assassinatos. As fitas, 180 no total, desapareceram dentro da própria Polícia Federal.

O ex-deputado Hidelbrando Pascoal: óleo quente e choro
O ex-deputado Hidelbrando Pascoal: óleo quente e choro

"Temos de pegar os donos do narcotráfico, quem ganha dinheiro com ele e quem lava dinheiro. Temos de chegar ao coração disso, senão vamos pegar apenas o pé-de-chinelo", disse o presidente Fernando Henrique na semana passada. Polícia Federal e CPI trabalhando juntas pode ser uma combinação interessante. A comissão é uma caixa de ressonância com um poder de propagação impressionante e ingredientes sensacionais para chamar a atenção. A PF pode dar sustentação técnica. Na semana passada, por exemplo, o coronel fatiador Hildebrando Pascoal foi ao Acre prestar depoimento num inquérito que apura mais um dos crimes horrendos de que é acusado. Preso em Brasília, depois de um trabalho conjunto das duas instituições, foi escoltado até a Base Aérea, onde embarcou num avião. Um dos motores não funcionou na hora da decolagem e a aeronave teve de ser substituída. Em Rio Branco, Hildebrando chorou depois de negar sua participação na morte de um menino de 10 anos, que, antes de ser retalhado, teve o corpo queimado com óleo quente. No mesmo dia, policiais localizaram um cemitério clandestino onde foram encontradas duas ossadas de outras supostas vítimas do ex-deputado Hildebrando. É emoção atrás de emoção.

Enquanto isso, em Campinas, surgiu outra história de arrepiar também cheia de ingredientes intrigantes. Investigações da Polícia Federal mostram que funcionava na cidade um ramo muito grande de uma quadrilha especializada em lavagem de dinheiro. Surgiram, entre os envolvidos, o nome do eterno Paulo César Farias, ex-tesoureiro do presidente Fernando Collor, e o de Luiz Roberto Zini, ex-presidente do Guarani, time local que se classificou para as finais do campeonato brasileiro de futebol. Segundo a polícia, empresas e contas fantasmas foram abertas na cidade para lavar dinheiro do tráfico de armas, contrabando, drogas e roubo de cargas. Nessas contas é que apareceram cheques de fantasmas da turma do ex-presidente Collor. A CPI, é claro, já tem uma prioridade para esta semana, embora qualquer detetive de interior saiba que as lavanderias não perguntam ao cliente a procedência do dinheiro. PC Farias, que já morreu, e o ex-presidente do Guarani podem não ter nada a ver com o narcotráfico, mas estarão a partir de agora no olho do furacão.

Vladimir Netto

Fonte: Revista Veja

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